Caminhos invisíveis: como a videolaringoscopia permite “ler” o que o corpo ainda não disse

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Sabe aquela rouquidão que insiste em não passar depois de um resfriado? Ou aquela sensação estranha de que tem um “farelo” de comida preso na garganta, mesmo quando você não comeu nada? Muitas vezes, o corpo tenta nos enviar sinais sutis, mensagens cifradas que não aparecem no espelho do banheiro e que a gente acaba ignorando na correria do dia a dia. É aí que entra a videolaringoscopia, um exame que, apesar do nome pomposo, funciona como uma lanterna de alta definição em uma caverna escura. Como cirurgião de cabeça e pescoço, vejo a laringe e a faringe como uma espécie de “caixa-preta” do organismo. Ali, tudo o que falamos, respiramos e engolimos deixa rastros. A videolaringoscopia é o que nos permite ler esses rastros antes que eles se tornem um problema maior. Na prática, o exame é muito mais simples do que a maioria dos pacientes imagina. Não precisa de jejum rigoroso ou internação.

O que fazemos é introduzir uma fibra óptica fininha — pode ser por via nasal (flexível) ou pela boca (rígida) — acoplada a uma câmera. Em poucos minutos, consigo visualizar as cordas vocais vibrando, a base da língua e a entrada do esôfago. É como se eu estivesse fazendo um “check-up” visual em tempo real de uma área que, de outra forma, seria completamente invisível. Lembro-me de um caso recente no consultório. Um senhor, fumante de longa data, veio até mim apenas porque a esposa insistiu. Ele dizia que a voz estava “mais grossa por causa da idade”. Durante a videolaringoscopia, notei uma pequena mancha esbranquiçada em uma das cordas vocais, algo que chamamos tecnicamente de leucoplasia. Aquele era o corpo dele tentando dizer que um carcinoma epidermoide (o tipo mais comum de câncer na região) estava começando a se formar.

Como “lemos” o sinal cedo, o tratamento foi minimamente invasivo, sem cortes externos e com uma recuperação excelente. Se tivéssemos esperado a dor ou a falta de ar aparecerem, a história seria outra. Mas o exame não serve apenas para rastrear tumores. Ele é fundamental para entender por que alguém tem disfagia (dificuldade para engolir) ou por que um cantor está perdendo o alcance das notas agudas. Às vezes, o culpado é apenas um refluxo faringolaríngeo, onde o ácido do estômago sobe e “queima” a mucosa da garganta, causando pigarro constante e inflamação. O que você sente durante o procedimento? Geralmente, aplicamos um spray anestésico para tirar a sensibilidade e evitar aquele reflexo de náusea. Você fica acordado, respira normalmente e, em muitos casos, pode até acompanhar as imagens comigo em um monitor. É um momento educativo: eu mostro ao paciente como as pregas vocais se fecham para produzir o som e como a epiglote protege o pulmão na hora de engolir. Muitas pessoas chegam ao consultório ansiosas, com medo do que o exame pode revelar. Eu sempre digo que o conhecimento é o nosso maior aliado. O medo geralmente vem do desconhecido.

Quando colocamos uma câmera e vemos que aquele incômodo é apenas um pólipo benigno ou uma inflamação por esforço vocal, o alívio no rosto do paciente é imediato. E mesmo quando o diagnóstico é mais sério, descobrir no início é o que nos dá as melhores ferramentas para a cura. Se você notar uma alteração na voz por mais de duas ou três semanas, ou se sentir que engolir virou um desafio, não espere o sintoma “gritar”. Às vezes, o corpo fala baixo, e a videolaringoscopia é o ouvido atento que precisamos para escutá-lo. Marcar uma consulta com um especialista é o primeiro passo para transformar essa incerteza em cuidado real.

Dr Stéfano Fiúza – Cirurgião de Cabeça e Pescoço
Visc. de Pirajá, 303 – 9º Andar – Ipanema, Rio de Janeiro – RJ, 22410-001
(21) 99402-4000